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O Pulo do Gato
Brasília, 03 de junho de 2002

:: Da Redação - Correio Braziliense

 

O paulista Gilberto Franzoni ensaiava os primeiros passos enquanto Francisco Cuoco brilhava na pele de um poderoso dono de estaleiro na novela global Selva de Pedra. Na década de 70, construir navios ainda engordava contas bancárias em terras tupiniquins. Mas nos anos 90, quando Gilberto se matriculou no curso de Engenharia Naval da Universidade de São Paulo (USP), o rumo do mercado era bastante diferente.

‘‘No terceiro ano, fomos avisados pelos mais velhos de que não haveria oportunidades de trabalho para todos’’, lembra. Assim que se formou, Gilberto decidiu aliar as dificuldades do mercado à busca de um local mais seguro para viver com a família. Trocou São Paulo por Brasília. E as fórmulas de engenharia pelas estratégias de marketing. ‘‘Deixei minha cidade natal sabendo que teria de redefinir a minha carreira’’, conta o atual gerente de vendas da Americel.

Há 10 anos, observa a consultora de recursos humanos Daniella Caminha, esse tipo de atitude era vista com maus olhos. Nos dias atuais, essa postura até conta pontos a favor dos ousados. ‘‘Hoje as pessoas questionam mais as suas carreiras’’, destaca Daniella. Os mais arrojados arriscam, afirma a consultora da Soma Desenvolvimento Humano. Já os cautelosos convivem com a frustração ou procuram ajuda profissional.

No consultório da psicóloga Dulcinea Cassis, não faltam pessoas incomodadas com a profissão que exercem. ‘‘Toda a mudança tem que ser muito bem planejada’’, alerta. ‘‘Às vezes, a pessoa não precisa de uma nova profissão. Basta aprender a trabalhar em equipe.’’

Segundo as duas especialistas, as pessoas ficam em cima do muro porque não conseguem acompanhar a agilidade do mercado. A morosidade começa no momento da escolha da profissão. Os cursos da moda enchem os olhos dos vestibulandos e eles acabam se esquecendo de que vão passar pelo menos quatro anos se preparando para entrar no mercado.

Antes de enfrentar o concorrido vestibular da Universidade de São Paulo (USP), Gilberto deixou-se levar pelos caprichos do mercado. ‘‘Li em um guia para estudantes que, depois de 10 anos de trabalho, o engenheiro naval recebia um dos melhores salários do país. Eu não tinha maturidade para fazer a escolha’’, analisa. Não ter dúvidas quanto à escolha do curso de graduação, no entanto, não garante calmaria durante toda a vida profissional. Que o diga o maquiador e cabelereiro Ronaldo Mello.

Apaixonado pela moda desde os 12 anos de idade, o goiano decidiu, aos 20, concorrer a uma vaga de Psicologia na Universidade de Brasília (UnB) convencido de que havia escolhido o curso certo. Formado, Ronaldo montou um clínica com um amigo e trabalhou por um ano e meio até trocar o consultório pelo salão de beleza. ‘‘Sou uma pessoa imediatista. Me incomodava ficar o dia inteiro confinado em um mesmo lugar e realizando um trabalho de resultado lento’’, justifica.

:: Lições práticas

Há nove anos, Ronaldo entrou no salão Ricardo Maia disposto a aprender técnicas de maquiagem e corte de cabelo para construir o seu estilo de trabalho. Consultora de empresas como a GVT e o Hospital Anchieta, Daniella Caminha diz que mergulhar de cabeça no mercado é a melhor maneira de trocar de profissão. ‘‘É claro que a pessoa precisa estar disposta a receber salários inferiores e ocupar cargos de iniciantes’’, avisa. ‘‘Mas as experiências sinalizam que a prática é o caminho mais efetivo para se ingressar em um novo mercado.’’

Nem sempre, porém, a ‘tática do mergulho’ dá certo. Para atuar em algumas profissões, a única saída é voltar aos bancos da escola. Em alguns casos, a pós-graduação é mais do que eficiente. Mas quando o médico decide virar engenheiro elétrico, o jeito é compartilhar a formação com os mais novos. ‘‘Nesses casos, a pessoa deve tentar conciliar os estudos com a profissão antiga’’, ensina Daniella.

De volta à graduação, o estudante deve se preocupar em viver a fase acadêmica de forma mais pragmática. ‘‘O mercado está tão dinâmico que os cursos deixaram de ser fim para ser um meio de ascensão profissional’’, observa a psicóloga Dulcinea Cassis. ‘‘Já que não pode prever o futuro, a pessoa deve se preparar, dentro da sua vocação, para o cenário que vier.’’

Além de destrinchar fórmulas de química e física, um engenheiro civil pode desenvolver habilidades como gerenciamento de pessoas, criatividade e trabalho em equipe. ‘‘O estudante de história pode, no futuro, trabalhar com política. O geógrafo, com turismo. Quanto mais valores forem agregados ao currículo, menores as chances de futuras frustrações’’, destaca a psicóloga.

 

Salto Certeiro
Brasília, 03 junho de 2002

 

 

Algumas dicas que podem ajudar no sucesso de quem pretende seguir um novo rumo profissional:

Procure conhecer como é o mercado da atividade que você pretende exercer antes de fazer a troca. Conversar com profissionais da área, detectar os prós e os contras dos diferentes ramos de atuação e ler publicações especializadas podem facilitar a pesquisa

Tenha em mente que a troca de profissão quase sempre vem acompanhada de reduções salariais e ocupação de cargos reservados aos iniciantes. Encare a situação como algo temporário e um incentivo para você crescer no novo setor

Não escolha uma profissão apenas porque ela oferece os melhores salários da atualidade. Os especialistas alertam que o mercado está tão dinâmico que é comum um setor explodir e despencar
em um piscar de olhos

Desenvolva, durante a graduação, habilidades que não são tratadas entre as disciplinas obrigatórias. Saber trabalhar em equipe e ser capaz de liderar pessoas são características valorizadas em qualquer tipo de organização

Faça cursos que abordem as ciências de forma pura caso você não saiba que profissão pretende assumir. Um matemático, por exemplo, é capaz de trabalhar com informática, engenharia de redes e tecnologias da informação

Procure a ajuda de um especialista em recolocação profissional caso você esteja em dúvida quanto à mudança de profissão. Às vezes, a solução pode estar na troca de um chefe ou na realização de um novo curso de capacitação