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Nem Pensar (Brasília)
Brasília, 12 setembro de 2002

:: Da Redação do Correio Braziliense - Paulo de Araújo
Pesquisa aponta Brasília como a cidade mais rejeitada pelos executivos de grandes empresas. Apesar das resistências, quem aceita convite para trabalhar aqui acaba gostando da capital da República

 

O engenheiro elétrico Sérgio Marques encontrou em Brasília a segurança e qualidade de vida que não tinha no Rio de Janeiro.

Há uma hora na carreira de um executivo que a proposta se torna inevitável. Com um serviço de bisbilhotagem sem fronteiras, as empresas procuram incrementar suas equipes com os melhores funcionários do mercado. Onde quer que eles estejam. A ascensão na carreira é o principal artifício usado pelos caça-talentos para tornar a oferta de emprego em outra cidade a mais atraente possível. Mas quando o convite é para trabalhar em Brasília ou em São Paulo, a negociação se torna mais suada. Para mudar de cidade muitos profissionais exigem, pelo menos, o dobro do salário.

A aversão à capital federal e à terra da garoa foi constatada por pesquisa divulgada recentemente pela Catho. A empresa paulista de recursos humanos consultou 9.174 profissionais e elaborou um ranking das cidades que eles querem distância. Brasília, interiorana diante da imensidão paulista e carioca, lidera a lista das rejeitadas. Em seguida vêm São Paulo, Ribeirão Preto, Rio de Janeiro, Uberlândia e Belo Horizonte. Quando a proposta é para a região Sul, as resistências são menores. Apenas 2,03% dos entrevistados não topariam trabalhar em Curitiba, e 5,69% rejeitaram Porto Alegre.

Entre os entrevistados, 22,82% dos homens e 32,97% das mulheres disseram não aceitar uma proposta de emprego em Brasília por dinheiro nenhum desse mundo. Os mais dispostos só começam a encaixotar as roupas diante de um aumento salarial, em média, de no mínimo 105,91%, se homens, e de 152,98%, quando mulheres. Para Thomas Case, presidente da consultoria, tamanha aversão se dá devido ao fato de a imagem da cidade estar intimamente ligada ao funcionalismo público. Há cinco anos em Brasília, o engenheiro elétrico Sérgio Oliveira Marques não tem dúvidas de que o mercado candango é diferente da imagem disseminada em outras cidades. Cansado da vida agitada de São Paulo e recém-separado, o carioca de 45 anos decidiu apostar em Brasília. ‘‘Não tinha certeza se iria me adaptar’’, conta. ‘‘Já sabia da força das indicações para colocação no mercado e da dificuldade de relacionamento entre pessoas de classes sociais diferentes.’’

Apesar dos empecilhos, Sérgio, que mora na Asa Sul, descobriu com facilidade, e em pouco tempo, uma série de atrativos da cidade. ‘‘Quando estava prestes a mudar do Rio para São Paulo, em 1986, fui assaltado em casa à mão armada’’, conta. ‘‘Queria um lugar que fosse pacato e oferecesse oportunidades na área de informática.’’ O preço do achado, no entanto, não agrada a todos os bolsos. Segundo Patrícia Alves, da empresa brasiliense Ótima Recrutamento, o alto custo de vida da cidade é o primeiro questionamento feito por quem recebe um convite de emprego para Brasília. ‘‘As empresas acabam tendo que pagar o aluguel por um determinado tempo, além de ajudar nos custos da mudança.’’ A consultora conta que esbarra com freqüência na dificuldade de recrutar profissionais de outros centros. Para tornar a negociação mais sedutora, ela costuma enviar aos pretendentes roteiros turísticos e guias de serviço.

‘‘Essa resistência está muito ligada à falta de informação sobre como Brasília funciona’’, afirma Patrícia Alves. Thomas Case acredita que a contratação fica ainda mais prejudicada devido a uma aversão natural das pessoas à mudança. ‘‘O profissional que quer progredir tem de estar aberto a novos desafios.’’ Segundo a pesquisa da Catho, 66% dos presidentes e 41% dos diretores entrevistados já tiveram que mudar de cidade por questões profissionais.

:: Vaivém global

Formado em contabilidade, Luiz Carlos de Oliveira Prado, 43 anos, é uma dessas pessoas que perseguem uma proposta tentadora onde quer que ela esteja. Por isso, apesar da visão negativa que tinha da capital da República - de que aqui tudo só funciona bem para os políticos -, em 1990 ele aceitou deixar o emprego em Piracicaba, no interior de São Paulo, para ser gerente-administrativo do Pátio Brasil. Hoje, instalado no Lago Sul com a família, tem uma visão diferente. ‘‘A cidade é muito bem cuidada, o trânsito é organizado e fácil’’, elogia.

Para Cida Lopes, gerente de recolocação da Manager - Assessoria de Recursos Humanos, um dos motivos para esse vaivém de profissionais é a globalização. ‘‘Eles sabem que têm de estar mais disponíveis’’, afirma. ‘‘A qualquer momento podem surgir boas propostas de ascensão na carreira em outro lugar do país e até do mundo.’’ Formado em administração há 15 anos, Phelipe Ranzolin Nerbass perdeu as contas das vezes que teve de arrumar as malas em busca de novos desafios para a carreira.

O catarinense já trabalhou em algumas das cidades que figuram entre as primeiras no ranking de rejeição. Há seis anos em Brasília, o morador do Sudoeste não tem dúvidas de que ganhou qualidade de vida. ‘‘Em São Paulo, eu morava a cinco quilômetros do trabalho e demorava 45 minutos de casa até o edifício. Aqui, a distância é de 15 quilômetros e, mesmo com trânsito, gasto 15 minutos para chegar ao trabalho’’, compara Phelipe, que trabalha como gerente comercial de uma empresa de telecomunicações.

Diretora comercial da Soma Desenvolvimento Humano, Marisa Fiuza acredita que as dificuldades em recrutar um funcionário eram bem maiores há cinco anos. ‘‘Hoje já encontramos profissionais com boa formação acadêmica e experiência’’, conta.